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domingo, 15 de abril de 2012

OS MAIAS - O Passeio Final

Se tens o manual Plural 11, da Lisboa Editora, aqui tens mais propostas de resolução de algumas questões da leitura orientada:

Página 224
1. Representando Camões, a estátua simboliza a grandeza e a glória nacionais do passado. O contraste dessa época áurea com a decadência do presente explica a tristeza.
2. A repetição de “mesmo” acentua a ideia de estagnação, de não evolução da cidade e, por extensão, do país.
2.1. “Reentrando”; “nada mudara”; “conservava”; “reconhecia (…) sujeitos que lá deixara (…) já assim encostados, já assim melancólicos. (…) lá estacionavam ainda…”.
3. Os dois tipos de vadios distinguem-se pela sua condição social, percetível através da sua vestimenta (“em farrapos” / “de sobrecasaca”). A crítica visa especialmente o segundo grupo, os que politicavam, tão inúteis socialmente como os primeiros.
Página 225
1. “Entristecia”, “caixões”, “mancha lívida de uma caveira”, “friagem regelava”, “amortalhados”, “cheiro de múmia”, “sufocados”, “estrangulados”, “lágrimas”, “morria um resto de sol”, “infernal”, “sudários”, “envelheciam”, “prantozinho”, “desaparecendo”, “devorado”, “um raio de sol morria”, “cinza do crepúsculo”.
2. O excerto contém uma referência ao quadro da Condessa de Runa, que parecia também querer abandonar a casa, para “consumar a dispersão da sua raça”. Existem também referências a espaços religiosos (como o “claustro abandonado”), e à tristeza do jardim (como um “retiro esquecido”).
4. O ataque de espirros de Carlos e Ega, e a canelada do último contra um sofá, servem de contraponto cómico ao dramatismo da situação.
Página 227
1. O excerto situa-se no capítulo final do romance.
2. Carlos considera que é impossível evitar o falhanço; faça-se o que se fizer, não se pode fugir à desilusão, porque a vida nunca resulta naquilo que esperávamos dela.
4.1. O tempo cronológico vivido por Carlos no Ramalhete é objetivamente curto (não chegou a dois anos). No entanto, o tempo psicológico, ou seja, o tempo percecionado subjetivamente por Carlos, foi bastante mais longo, uma vez que foi um período importante e intenso.
4.2. — Não me admiro. Só aqui viveste realmente daquilo que dá sabor e relevo à vida – a paixão!
5. Ser romântico era para eles ser insensato, governado apenas pelos sentimentos, sem usar o pensamento racional. Por outro lado, ser racional era ser sem sabor, viver sem emoções, sempre lógico, enfim, o oposto de romântico.
6. Está completamente de acordo: aceitando o princípio de que a vida resulta sempre em desilusão, faz sentido não ter quaisquer expetativas, evitando assim as contrariedades e a frustração.
7. Se a felicidade estava em nada desejar, o facto de se esforçarem, correndo para apanhar o americano, não faz, aparentemente, sentido. Além disso, o fatalismo muçulmano inclui não ter contrariedades, o que torna incoerente o facto de Carlos lamentar o esquecimento do “paiozinho”. Estas incoerências refletem o próprio percurso incoerente de Carlos.

Mais algumas ideias sobre o episódio do Passeio Final:

A ideologia do trágico no Passeio Final

  O pessimismo existencial das palavras de Carlos constitui a mais radical negação do Naturalismo determinista e positivista.

  Este diálogo final desempenha a função de um epílogo ideológico que abarca o nível da intriga e o da crónica de costumes: desiludidos por uma existência marcada pela tragédia e pelo falhanço social, resta a Carlos e Ega a opção do fatalismo, que é , ao mesmo tempo, a descrença nas suas próprias possibilidades.

  No entanto, esta atitude de desprendimento contém ela própria uma faceta trágica: a impossibilidade de assumir coerentemente esta teoria de vida, uma vez que os ideais resultam em desilusão e poeira.

  Na verdade, bastou a lembrança de um “paiozinho com ervilhas” para eliminar a atitude de desprendimento e reavivar a vitalidade humana numa corrida ofegante.

A visão pessimista do Portugal da Regeneração

  No episódio do Passeio Final, Eça destaca a decrepitude e o aspeto lúgubre das pessoas, motivadas por valores que não acompanharam a evolução dos tempos.

  Em Lisboa as pessoas traduziam a decadência do país, caracterizando-se fundamentalmente pela ociosidade crónica que as levava a vagabundear, numa moleza doentia.

  Eça pretendia dissecar o período da Regeneração, posterior ao regime liberal, um momento politicamente estável (após a revolta chefiada por Saldanha, em abril de 1851), mas económica e culturalmente decadente.

  A “regeneração” do país não se efetivara de facto; este termo deveria ter significado o progresso a todos os níveis, de modo a situar Portugal entre os povos civilizados; porém, cerca de trinta anos após as lutas liberais, o país não renascera.

Aspetos fundamentais da sociedade portuguesa dos finais do século XIX apresentados no Passeio Final

  Imobilismo total. “Nada mudara.” (pág. 697).

  Provincianismo da sociedade lisboeta. “…com uma curiosidade de província, examinavam aquele homem de tão alta elegância…” (p.699).

  Falta de fôlego nacional para acabar os grandes empreendimentos. “— Ora aí tens tu essa Avenida! Hem?... Já não é mau! (…) E ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato – que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo, com o fôlego curto, entre montões de cascalho.” (pp.701 e 702).

  Imitação acrítica do estrangeiro. “(…) Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro (…). Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e civilizado – exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura.” (p.703)

  Decadência dos valores genuínos. “(…) no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palacetes decrépitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brasões nas paredes rachadas, onde, entre a maledicência, a devoção e a bisca, arrasta os seus derradeiros dia, caquética e caturra, a velha Lisboa fidalga!” (p.704).

OS MAIAS - O Sarau do Teatro da Trindade

Algumas ideias sobre este episódio:

  O Sarau destinava-se a ajudar as vítimas das cheias do Ribatejo.

  Revela-nos aspetos caricatos da sociedade lisboeta: o gosto pela verborreia oca; a total falta de sensibilidade estética para apreciar o talento; a lágrima fácil perante o exagero poético romântico; a superficialidade das conversas.

  O primeiro interveniente é Rufino, um orador tido como sublime; a sua retórica vazia, quase barroca, traduz a sensibilidade literária da época; a sua bajulação à família real evidencia a idolatria em relação a quem o pode promover.

  Cruges representa o raro talento verdadeiro, incompreendido e alvo de risos.

  O último interveniente é Alencar, após “um intervalo de dez minutos como no circo”. O poeta declamou “A Democracia”, aliando poesia e política, numa encenação exuberante e sentimentalista, ultrarromântica, que termina, entre fortes aplausos, com propostas sociais utópicas de uma República em que o milionário, sorrindo, abre os braços ao operário.

  É neste episódio, aparentemente desligado por completo da intriga principal, que Ega entra em contacto com o Sr. Guimarães, personagem que se revela fundamental para o final trágico da intriga.


Se tens o manual Plural 11, da Lisboa Editora, aqui ficam algumas propostas de resolução das questões de leitura orientada da página 222:

1. A sátira social é dirigida ao atraso cultural e ao provincianismo do país. Por exemplo, a baronesa fala com desdém da música clássica de Cruges, sugerindo que este tocasse uma cantiga popular; ao mesmo tempo, elogia a ridícula declamação do Rufino. Também as outras senhoras mostram ignorância quanto à composição de Beethoven, chegando a marquesa do Soutal a designá-la por “Sonata Pateta”. Tudo isto provoca riso e gera desrespeito face à atuação de Cruges.

2. A confusão com o nome da sonata é o fator que gera o riso. A sonata, que é patética ou comovente, deveria gerar tristeza, suscitar piedade; porém faz o contrário, tornando-se de facto pateta, ou tola. Este contraste contribui para o cómico da situação.

3. Cruges fica atrapalhado e nervoso face ao desrespeito e ruído do público, acabando por abandonar o palco, frustrado e trémulo.

4. Esta passagem confirma a caracterização de Cruges como artista incompreendido num país que não está culturalmente preparado para acolher o talento. Vitorino está consciente de que nunca será compreendido como artista clássico. No fim do romance, quando Carlos regressa  após 10 anos de ausência, o maestro já é uma glória nacional, mas apenas porque se rendeu ao gosto popular, abandonando a música de qualidade.

OS MAIAS - o narrador

Aqui ficam algumas ideias sobre o narrador.


ž  O narrador é heterodiegético, ou seja, não é uma personagem da história.

ž  Assume, geralmente, uma atitude de observador.

ž  Marcas linguísticas: verbos na 3ª pessoa; pronomes e determinantes na 3ª pessoa; discurso indireto livre (nesta obra).

ž  O narrador omnisciente sabe tudo sobre as personagens: o seu passado, presente e futuro, bem como os seus sentimentos e desejos mais íntimos. É como um deus que tudo viu e tudo sabe. Verificamos que o narrador do romance conhece todo o passado dos Maias, sabendo mais sobre eles do que as próprias personagens. Isto permite-lhe arquitetar o romance, jogando com várias técnicas narrativas ao nível do tempo do discurso (por exemplo, a analepse).

ž  Um exemplo concreto do conhecimento do narrador relativamente à interioridade das personagens é o momento em que mostra conhecer os sentimentos que Afonso não expressa quando o filho, Pedro, surge perante ele, desesperado com a fuga da Monforte. (Final do cap. II – p. 44 – “Uma sombria tarde de Dezembro…”)

ž  O ponto de vista, ou perspetiva narrativa, corresponde à adoção, por parte do narrador, de uma determinada posição para contar a história.

ž  Perspetivar a diegese de acordo com uma determinada focalização não é só ver a diegese por certos olhos; é tomar em relação a ela uma posição afetiva e/ou ideológica. Constituir-se-á assim uma imagem particular da história, configurada pela subjetividade da personagem que a perspetiva.

ž  N’Os Maias é fundamentalmente sobre Carlos que recai a focalização interna: as outras personagens dependem da sua visão do mundo e é a sua subjetividade que atua como elemento filtrante da realidade observada.

ž  A focalização interna valoriza o universo psicológico de Carlos e proporciona uma visão crítica da sociedade.

ž  O ponto de vista de Carlos é sobretudo evidente nas passagens em que a obra nos dá a conhecer Maria Eduarda (o primeiro avistamento, o primeiro encontro,…). Aliás, parece ser na caracterização desta personagem feminina que o narrador mais abdica da sua omnisciência. Mas também existem outros exemplos da focalização interna de Carlos, como o jantar do Hotel Central ou o Passeio Final, em que a visão crítica da decadência do país é filtrada pelo olhar do protagonista.

ž  Ao privilegiar a focalização interna, o narrador vê, sente e julga os eventos ficcionais com e como a personagem, o que, por outras palavras, significa que as leis da subjetividade da personagem condicionam a imagem da diegese que é veiculada.

ž  A focalização interna adota por vezes a perspetiva de João da Ega. Um exemplo relevante deste ponto de vista são os episódios do jornal “A Tarde” e do Sarau no Teatro da Trindade.

ž  Outro exemplo digno de nota em termos de focalização interna, é o ponto de vista de Vilaça (pai), através do qual se apresenta a educação de Carlos em Santa Olávia.

ž  O narrador pode também optar pela focalização externa, ou seja, a simples referência aos aspetos exteriores da história contada: por exemplo, o aspeto físico das personagens, a sua vestimenta, ou os espaços físicos onde se movimentam.

ž  Esta atitude narrativa é especialmente empenhada na superficialidade e transmite, com objetividade, apenas aquilo que é observável.

ž  No entanto, n’Os Maias, a objetividade é, muitas vezes, apenas aparente. Assim, existem vários exemplos de utilização de adjetivos, de advérbios e de diminutivos que conferem subjetividade aos eventos narrados.

ž  Os exemplos que mais se destacam correspondem à descrição de Eusebiozinho ou à de Dâmaso. Encontramos aqui a focalização interventiva, com a função de comentário, aliada à adesão ou negação a/de comportamentos ou formas de estar das personagens. Pode ter uma função ideológica, por exemplo na apresentação da personagem Alencar, já velho, no jantar do Hotel Central.

OS MAIAS - Os Jornais "A Corneta do Diabo" e "A Tarde"

Jornal “A Corneta do Diabo” – cap. XV
ð Contextualização do episódio

¨  Carlos vive com Maria Eduarda num clima de felicidade, nos Olivais, enquanto o avô Afonso está em Santa Olávia.

¨  Recebe, através do Ega, um número da Corneta do Diabo, que o difama em calão "num caso que tem com uma gaja brasileira".

¨  Ega conseguira travar a tiragem do jornal, a troco de dinheiro.

¨  Carlos primeiro pensa em matar a quem escreveu mas, refletindo na verdade dos escritos, pensa se não será melhor não casar com Maria Eduarda.

¨  Volta ao primeiro pensamento: matar o autor do artigo.

¨  Descobre, pelo editor do artigo, o Palma “Cavalão”, que tinham sido o Dâmaso e o Eusébiozinho que lho tinham encomendado.

¨  Ega e Carlos vão até o Grémio, onde pedem a Cruges que faça de padrinho num duelo de Carlos.

¨  Cruges e Ega vão a casa do Dâmaso. Este faz uma cena ao saber do desafio, mas acaba por aceitar escrever uma retratação. Ega escreve-a e ele copia-a.

¨  Na retratação, Dâmaso afirma ser falso tudo o que fizera publicar, devendo-se o artigo a um estado de embriaguez, hábito hereditário.

¨  Ega entrega a retratação a Carlos. Satisfeito, Carlos devolve-lha, para usar como lhe aprouver.

ð Análise do episódio

¨  A Corneta do Diabo aparece como um jornal de maledicência e de escândalos. O narrador afirma que “na impressão, no papel, na abundância dos itálicos, no tipo gasto, todo ele revelava imundície e malandrice”.

¨  O Diretor e principal redator é Palma Cavalão, um jornalista corrupto. É nesta publicação que Dâmaso Salcede publica um artigo a satirizar a intimidade da relação de Carlos da Maia e Maria Eduarda. A suspensão da circulação deste número só é conseguida graças ao Ega e a um suborno de 100 000 réis.

¨  Eça de Queirós, com o episódio de A Corneta do Diabo e mais tarde com o jornal A Tarde, retrata a parcialidade do jornalismo da época e mostra a corrupção quando o Palma Cavalão aceita, por dinheiro, denunciar o autor do artigo comprometedor.

¨  O propósito queirosiano de denunciar a vida portuguesa da sociedade da época percebe-se também quando Carlos da Maia considera que "só Lisboa, só a horrível Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu rebaixamento social, a perda inteira de bom senso, o desvio profundo do bom gosto, a sua pulhice e o seu calão, podia produzir uma Corneta do Diabo”.

Adaptado de Infopédia
Jornal “A Tarde” – cap. XV
ð Contextualização do episódio

¨  Ega estava na posse da carta de retratação de Dâmaso.

¨  Junto com Carlos, decidem não a publicar, pois isso só suscitaria a curiosidade da sociedade lisboeta relativamente à relação de Carlos e Maria.

¨  No entanto, Ega vê Dâmaso com “a sua” Raquel Cohen. Dominado pelo ciúme, resolve humilhar Dâmaso publicamente.

¨  Dirige-se à redação do jornal A Tarde e tenta convencer o diretor, o Neves, a publicar a carta de Dâmaso.

¨  Este, inicialmente recusa, pois pensa tratar-se de Dâmaso Guedes, um correligionário político. Mas quando percebe que se trata do Salcede, acede a publicar a carta, para se vingar do “manganão” que os “entalara na eleição passada”.

¨  Na sequência da humilhação pública, Dâmaso parte de férias para Itália, e o assunto cai no esquecimento.

ð Análise do episódio

¨  O jornal A Tarde aparece em Os Maias dirigido pelo Neves, deputado, político.

¨  É neste jornal que Ega consegue a publicação da carta do Dâmaso, não só como represália da injúria feita a Carlos da Maia, mas também para se vingar de uma possível ligação do Salcede com a sua ex-amante Raquel Cohen.

¨  Todo o diálogo do Ega com o Neves e outros funcionários do jornal lisboeta mostra a atmosfera política, o cinismo e a parcialidade do jornalismo.

¨  Este está também patente na redação de uma notícia sobre o livro do poeta Craveiro, por pertencer "cá ao partido", mas sobretudo quando Gonçalo, um dos redatores do jornal, depois de exclamar "Que besta, aquele Gouvarinho!" e de o considerar "uma cavalgadura" afirma que "- É necessário, homem! Razões de disciplina e de solidariedade partidária... Há uns compromissos... O Paço quer, gosta dele...". E tudo isto acontece pois " - Há aí umas questões de sindicatos, de banqueiros, de concessões em Moçambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!“.

Adaptado de Infopédia

Os jornais n’Os Maias – as personagens-tipo

Palma "Cavalão"

¨  Proprietário e redator do jornal "A Corneta do Diabo", é um jornalista corrupto, facilmente "agitado com o tinir do dinheiro".

¨  O nome de "Cavalão" fora atribuído ao Palma para o "distinguir de outro benemérito chamado Palma Cavalinho.”

¨  Sem carácter, publica artigos injuriosos ou retira-os, desde que para isso lhe paguem.

¨  É baixo e gordo, como se depreende das palavras de Alencar que o define como "canalha", "vil bolinha de matéria pútrida!..." e "chouricinho de pus!“.

¨  Palma Cavalão é o símbolo do jornalismo de escândalo, feito por jornalistas imorais e corruptos.

Neves

¨  Diretor do jornal “A Tarde”, aproveita a sua situação para influenciar politicamente os leitores.

¨  Revela parcialidade na decisão de publicar ou rejeitar artigos com base em amizades políticas.


Os jornais n’Os Maias – a crítica

¨  O episódio dos jornais critica a decadência do jornalismo português que se deixa corromper, motivado por interesses económicos e demonstra uma preferência comprometedora de feições políticas.

¨  Este episódio visa denunciar o baixo nível da imprensa lisboeta da época, que se alimenta de factos da vida privada das pessoas.

¨  Critica-se a falta de ética dos jornalistas juntamente com a corrupção envolvida, sendo que se verifica ainda a vingança mesquinha e as amizades simuladas através das atitudes de Dâmaso e de Eusébio.

¨  Aspetos a notar: o baixo nível; a intriga suja; o compadrio político; assim como os jornais, está o País.

A ideologia do trágico vs. o Naturalismo

Aqui ficam algumas ideias adaptadas de Introdução à Leitura d'OS MAIAS, de Carlos Reis.


  A tragédia desencadeia-se sempre que uma força transcendente, dotada de um poder arbitrariamente exercido, põe em causa a segurança e a felicidade dos homens.

  Com o advento do Positivismo, as possibilidades do conhecimento humano parecem não encontrar obstáculos intransponíveis.

  Do mesmo modo, o Determinismo de Taine julga poder explicar certos fenómenos culturais por força de fatores como o ambiente, a raça e o momento histórico-social.

  Assim, não é difícil inferir que o Naturalismo, como período estético-literário alicerçado, em grande parte, em correntes de pensamento como o Positivismo e o Determinismo, manifesta-se francamente adverso a qualquer tipo de conceção trágica da existência.

  Ou seja: com o Naturalismo, o escritor demonstra a convicção de que o homem pode dominar e controlar a sua existência sem necessidade de invocar forças transcendentes.

  Porquê, então, a problemática do trágico n’ Os Maias? É que Os Maias surgem numa época de crise de confiança nas coordenadas ideológicas subjacentes ao Naturalismo.

  A descrença na estética naturalista não corresponde a um corte radical, mas antes a uma transformação das diretrizes da escola literária em questão.

  A dimensão trágica da intriga d’ Os Maias insiste fundamentalmente em valores anti positivistas: a incapacidade do homem controlar a sua existência, o carácter imprevisível dos fenómenos, a derrocada de uma situação de felicidade que aparentemente nada poderia pôr em causa.

  Por isso, não se estranha que, quando sobrevém o reconhecimento que antecede a catástrofe trágica, seja Ega a personagem mais diretamente atingida pela crise de confiança em valores até então julgados inabaláveis.

  Para Ega, o que está em causa é, antes de mais, o significado ideológico de um incesto estranho numa sociedade que se julgava perfeita; os factos evidenciados por esse misterioso Guimarães colidem brutalmente com a feição disciplinada de um sistema social espartilhado pela burocracia e, portanto, aparentemente inadequado à eclosão do excecional.

      «Não podia ser! Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia Idade! Mas nunca numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papéis, com tanto registo de baptismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser! Não!» - cap. XVI, p. 621.

  Assim, impõe-se uma nova ordem: a do absurdo inexplicável em termos racionais, isto é, a da sujeição a explicações de tipo transcendente que tendam a enraizar os fenómenos nos desígnios insondáveis de entidades supra-humanas.

  Por isso mesmo, não se estranha que, no episódio final, o romance se encerre com uma mensagem ideológica identificada com uma conceção fatalista da existência, amadurecida nos dez anos entretanto acumulados:

«Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear… Não se abandonar a uma esperança – nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge… (…)» – cap. XVIII – p. 715.

  Em última análise, o pessimismo existencial patenteado nestas palavras constitui a mais radical negação do Naturalismo determinista e positivista.

  Em função do exposto, compreende-se que este diálogo final desempenha uma função de epílogo ideológico que abarca o nível da intriga e o da crónica de costumes: desiludidas por uma existência estigmatizada pelo ferrete da tragédia como pelo do falhanço social, às duas personagens resta apenas a opção do fatalismo que é, ao mesmo tempo, a da descrença nas suas próprias possibilidades.

Dâmaso Salcede

Elementos para a caracterização da personagem:

Ò é mesquinho e cobarde; não tem dignidade (porta-se como uma rafeiro sabujo);

Ò presumido e gabarola, provinciano e tacanho, só tem uma preocupação na vida: o “chique a valer”;

Ò fisicamente, é baixote, gordo, frisado como um noivo de província;

Ò aproxima-se de Carlos, que admira e inveja, por interesse e desejo de condição social;

Ò tenta convencer-se e convencer os outros do fascínio irresistível que supostamente desperta no sexo oposto, não obstante as suas conquistas estarem confinadas a espanholas de reputação muito duvidosa;

Ò possuidor de grande bazófia e sendo um enorme cobarde, difama pública e anonimamente Carlos, mas retrata-se logo em seguida;

Ò nada tem de inteligente, de honrado ou de nobre;

Ò consegue casar com uma filha dos Condes de Águeda que se apressa a traí-lo;

Ò condensa toda a estupidez, futilidade e ausência de valores da sociedade;

Ò copia qualquer moda ou comportamento importado do estrangeiro, principalmente de França.

A propósito de Dâmaso, ficam aqui também sugestões de respostas para algumas das questões dos exercícios de leitura orientada das páginas 216 e 217 do manual Plural 11, da Lisboa Editora.

1. O cartão de apresentação, excessivamente ornamentado, revela o seu exibicionismo e o seu desejo de ostentar um estatuto social elevado.

2.1. Dâmaso usa um registo de língua pouco cuidado, roçando o calão, como podemos verificar por expressões como “chinfrim”, “género fêmea”, “muita espiga”, “ninguém o pilhava”. Além disso, repete frequentemente o bordão “chique a valer”, evidenciando a sua pobreza vocabular.

2.2. Dâmaso afirma que é um leitor assíduo, mas de seguida confessa achar “confusote” o autor que está a ler, apesar de o considerar “chique”.

2.3. Não. Ele gaba-se de tudo, incluindo das conquistas amorosas. Além disso, classifica-se perante Carlos como “um rapaz da sociedade”.

3. Carlos representava tudo o que Dâmaso queria ser.

3.1. Carlos evitava-o porque Dâmaso impunha a sua presença e era, muitas vezes, inconveniente, chegando a deixar Carlos embaraçado em público.

O espaço físico e os elementos simbólicos

Aqui ficam algumas ideias sobre o simbolismo dos espaços físicos presentes na obra:

1. O Ramalhete

¨  Na opinião de Vilaça, as paredes do Ramalhete sempre foram fatais aos Maias.

¨  Está ligado à decadência nacional. Aliás, o ramo de girassóis aponta para uma atitude contemplativa de submissão, associada à incapacidade de ultrapassar esse estado rebaixado. Isto reflete não só a presença avassaladora da paixão na família Maia, mas também o estado do próprio país.

¨  O jardim do Ramalhete também é rico em simbolismo. Sobressaem três símbolos: o cipreste, o cedro e a Vénus Citereia.

¨  O cipreste e o cedro, unidos de forma incorruptível pelas suas raízes que a tudo resistem, simbolizam o Amor Absoluto.

¨  A estátua da Vénus Citereia liga-se à sedução e à volúpia da deusa do amor. Passa por três fases: na altura da morte de Pedro, enegrecia a um canto; após a remodelação do Ramalhete, reapareceu em todo o seu esplendor, como símbolo de vida feliz, não deixando, no entanto, de estar ligada à desgraça futura, enquanto símbolo feminino desestabilizador; na terceira e última fase, aparece coberta de ferrugem verde e humidade, assumindo uma simbologia negativa de destruição.

¨  Importa referir também a cascata: a água é símbolo de regeneração e purificação, e o seu fluir representa a passagem inexorável do tempo, associada à ideia de Destino.

O Ramalhete – 10 anos depois

¨  Passados dez anos, a casa é um espaço frio, decadente, “amortalhado” sob lençóis, uma vez que Carlos levou para Paris parte do recheio do Ramalhete.

¨  No jardim, a Vénus enferrujada e a cascata sem água sublinham a decadência.

¨  O Ramalhete acompanha e simboliza a glória e a decadência dos Maias.

2. A Toca (casa de Maria Eduarda nos Olivais)

¨  Uma toca é um covil de um animal, é onde este se esconde das ameaças exteriores. Assim, o nome da casa aponta para uma amor marginal, que se torna animalesco por ser incestuoso, desafiando as leis humanas, primeiro de forma inconsciente, depois bestialmente consumado.

¨  Na Toca multiplicam-se os elementos trágicos, sobretudo no quarto de Maria Eduarda: a tapeçaria com os amores de Vénus e Marte; a pintura da cabeça degolada; a coruja empalhada.

3. Santa Olávia (o solar da família Maia, em Resende, na margem esquerda do Douro)

¨  Simboliza a vida e a regeneração dos dois varões da família.

¨  É um espaço natural, conotado positivamente.

¨  Opõe-se ao espaço citadino degradado – Lisboa – local da degeneração da família.

4. Sintra

¨  É um local idílico e representa a beleza paradisíaca.

¨  O seu aspeto edénico, será, no entanto, corrompido pela intrusão dos vícios decadentes, representados pelas figuras de Eusebiozinho e Palma Cavalão, acompanhados de prostitutas espanholas.

¨  Também Dâmaso Salcede transporta o seu “chique a valer” para Sintra, tornando este Éden natural uma continuação do espaço lisboeta.

5. Lisboa

¨  Representa Portugal inteiro: “O país está todo entre a Arcada e S. Bento!” (cap. VI).

¨  Símbolo da decadência nacional, Lisboa é caracterizada pela degradação moral e pela ociosidade crónica.

¨  No último capítulo da obra, destaca-se a estátua de Camões, que assiste impotente à decadência do país.

¨  O país, estagnado e politicamente amorfo, é incapaz de se regenerar, rendendo-se à mediocridade intelectual e à adoção de modas estrangeiras, renunciando a qualquer sentido de identidade própria.

6. Coimbra

¨  Espaço da formação académica de Carlos, Coimbra é símbolo da boémia estudantil, artística e literária.

¨  Eça terá escolhido Coimbra pelo facto de esta cidade ter sido o palco da Questão Coimbrã. Além disso, foi onde o próprio Eça estudou.

7. Espaços estrangeiros

¨  Em Londres exilou-se Afonso, e em Paris exilar-se-á Carlos depois da morte do avô.

¨  Em ambas as cidades viveu Maria Eduarda e daí trouxe o requinte que a distingue das demais.

¨  Para Dâmaso, é chique ir a Paris.

¨  Paris e Londres são, no imaginário português, a Europa civilizada.

¨  Os portugueses imitam as modas estrangeiras, como é visível, por exemplo, no episódio das Corridas no Hipódromo de Belém.

¨  No entanto, nas palavras de Ega, esta importação de modas estrangeiras não resulta, pois a civilização em segunda mão fica-nos “curta nas mangas”.

¨  No fim do romance, Carlos diz que Portugal “é horrível quando se vem de fora”.